O aniversário de 40 anos do Modelódromo do Ibirapuera, em São Paulo.
UMA HISTÓRIA PARA SEMPRE
O relato da luta pela construção nos anos 60, o apogeu e os problemas nos anos 2000 na visão de um dos seus criadores, com sugestões para resolvê-los.
Wálter Nutini
Estávamos no ano de 1966, chegando de uma viajem ao Campeonato Sul-Americano de Aeromodelismo, em Buenos Aires, Argentina. O avião era do Correio Aéreo Nacional (CAN), especialmente cedido para o evento pela Aeronáutica. O aeroporto, Congonhas. Como sempre, havia repórteres em busca de alguma notícia do dia e ao nos ver chegando com nossos aeromodelos, alguns troféus e uma equipe toda uniformizada, queriam como curiosidade saber do que se tratava. Eu chefiava a turma e, mais ou menos rapidamente, informei sobre o campeonato, explicando as varias modalidades em disputa. O mais difícil era falar sobre aeromodelismo, muito desconhecido para a maioria das pessoas e dos repórteres.
Fizeram uma pergunta muito interessante: “Vejo aí muitos troféus, vocês ganharam tudo?” Ai começou meu grande problema e, talvez, a historia do Modelódromo do Ibirapuera. Aproveitei a oportunidade para soltar a língua. Das 10 modalidades em disputa, vencemos 4 e, no total, o Brasil ficou em terceiro lugar, entre cinco paises participantes. Nas disputas individuais, pior ainda, pois só conseguimos dois primeiros.
Como a conversa estava boa e nós estávamos esperando o ônibus, um repórter, acho que com pouca matéria naquele dia, percebeu em minha voz uma queixa e um desabafo. “Porque tão pouco? Vocês são tão ruins assim no assunto?” Aí, não gostei. Informei que não tínhamos sequer onde treinar, nossas pistas foram tomadas pela Prefeitura. Não tínhamos equipamentos que na época, grande parte, trazíamos escondidos do exterior – não se fabricavam no Brasil. E por aí afora. Reclamei tudo o que achei ter de direito. Afinal, em muitos anos de atividade como esportista ou como dirigente, desde 1944 (Meu Deus! Quanto tempo!) nunca havia lido em algum jornal ou revista algo sobre aeromodelismo. Não me preocupei com minhas palavras, pois no máximo o que poderia acontecer era sair uma pequena notícia num rodapé escondido do jornal. Ledo engano.
No dia seguinte, fiquei curioso para saber se tinha saído algo na Gazeta Esportiva ou outro periódico. E lá estava em um deles em letras garrafais: “A Prefeitura de São Paulo, não ajuda o aeromodelismo e a equipe brasileira sofre grande derrota na Argentina”. Que susto!
Não deu outra. À tarde, recebi um telefonema do chefe de gabinete do prefeito de São Paulo marcando uma entrevista para o dia seguinte. Lá fui eu, mais por curiosidade, pois em minha vida nunca havia falado com alguém de tal importância.
Na hora exata, abriu-se a porta do chefão e solicitaram que eu entrasse. O então prefeito, brigadeiro José Vicente de Faria Lima, homem da aeronáutica, de cara fechada, foi direto: "Foi você quem deu uma entrevista aos jornais sobre o Sul-Americano? Quando foi que algum dirigente ou esportista do aeromodelismo me pediu algo? É uma acusação séria e quero saber do que se trata."
Esclareci que há muito tempo tínhamos um local perto da avenida IV Centenário, uma pista especial e que sumariamente nos foi tirada pela Prefeitura. Lá se instalou um clube para cachorros. As razões eu não sabia ao certo. Tínhamos tentado falar com o prefeito, mas sempre as portas estavam fechadas. Não somos políticos e, para os cidadãos comuns, não é fácil conseguir uma entrevista. Ele rapidamente entendeu e as nuvens no céu desapareceram. Atentamente me ouviu e prometeu que iria nos contatar em breve.
Uns dias depois, o arquiteto da prefeitura Gilberto Caldas, por sorte meu amigo, chamou-me em seu escritório dizendo ter recebido a incumbência do prefeito para localizar na cidade uma área e projetar uma pista para aeromodelismo. Pediu minha ajuda nos detalhes e, aí, a coisa ficou fácil. Ele não conhecia bem o aeromodelismo, mas seu sócio no escritório, outro grande amigo, o também arquiteto Mário Monteiro, não só conhecia como praticava o esporte como hobby. Os desenhos seriam feitos pela assistente de Gilberto, Ayako Nishikawa, que mais tarde me presentearia com uma cópia da planta do projeto.
Sempre com algumas revistas estrangeiras debaixo do braço, tivemos vários encontros. Eu provoquei: Que tal, ao invés de fazer apenas uma pista para aeromodelos, construir um Centro de Modelismo como em alguns países da Europa? Na América do Sul não havia nenhum. A idéia prosperou e em pouco tempo Gilberto já havia feito um esboço. O passo seguinte seria localizar um local adequado. Entre as várias opções oferecidas, a melhor sem dúvida era um terreno no Ibirapuera, que na época estava sujo e abandonado. E assim localizado, o esboço foi apresentado ao brigadeiro Faria Lima.
















